maio 28, 2004

No reino do supersexo

O macho está diferente. Quase todo mundo já notou. Não é só que esteja mais sensível nos tempos de emancipação feminina e todo aquele blá-blá-blá. Não foi só o macho que mudou; a fêmea também. Mudaram os tempos e mudaram os anseios de todo mundo.
Havia um tempo em que quase todos eram oficialmente hetero, alguns secretamente homo e bi e outros poucos, abertamente desviantes da norma. Eram tempos também em que toda mulher esperava um homem que a protegesse, bancasse, ditasse seu comportamento. E um homem que buscava uma mulher comportada, feminina, cumpridora dos seus deveres.
Hoje os homens machos posam de saia pra capa de revista e reclamam que as mulheres ficaram exigentes demais. Mulheres se queixam dos feios comprometidos e dos bonitos restantes que são gays. Macho trepa com macho e assume. Fêmea trepa com homem mas quer saber como a outra mulher é na cama. Os casais têm mulheres dominadoras e homens submissos, têm gente de cabeça aberta que pula o muro com o consentimento do outro. Por aí, peitos turbinados se empinam como uma lembrança exagerada da feminilidade. Paus vitaminados com Viagra e Levitra não deixam nem os velhinhos de fora das exigências da demanda.
Nossos tempos também são de gente que não sabe onde deixou o tesão no meio desse labirinto. Para vender seguros, tasca-se aquela modelo gostosona. A outra potranca, a que vende cerveja Skol, não traz a barriga que se espera de uma cervejeira inveterada. Deve ser coisa do personal. Filme sem uma ceninha de sexo não tem graça, todo mundo sabe.

E como está bem a Demi Moore? Deve ter malhado para o papel. Ou a barriguinha sarada foi resultado de uma boa lipo? Vamos descobrir na Internet, que, aliás, pode ter uma foto vazada do Brad Pitt pelado. Vou ver se o pau dele é do tamanho do meu. Aliás, devo acreditar nos e-mails que apregoam pênis maiores e mais fortes?
Em algum lugar desse troço estranho chamado cabeça está o nosso tesão. Que deve ter cor, formato e cheiro. E é como as pipocas que, dizem, nunca estouram da mesma maneira. Por uns tempos, a gente escolhia uma caixinha pro nosso e deixava ele lá, conformado. Hoje as embalagens vêm de todos os formatos e vai saber lá onde acomodar o nosso?
No campo da imaginação, o séquisso está sem limites. A dois, a três, com bicho, anão, barrigas saradas, peitos enormes, paus infalíveis, estrelas de Hollywood, modelos dos ensaios, crianças, no carro, contra a parede, de lado, com sofá erótico, camisinha extrafina, pomada anestésica, por todos os buracos, com amor e sem. 1001 maneiras de enlouquecer seu homem na cama. Os segredos do sexo oral desvendados em Nova. Nunca a aventura de trepar foi tão arriscada, um esporte radical que exige atletas preparados. E que não decepcionem, afinal a concorrência está aí com todas as suas armas, que podem ser pênis acrescidos de até 7 cm, vai saber.
No mundo impalpável, o supersexo. Nas praças, bancos, fileiras do supermercado, celulites, barriguinhas esponjosas, peitos que já tombam com o peso, gente que brocha, cabelos que caem, modelos gostosonas que não sabem o que dizer, mãos que se confundem nas carnes de quem está na cama. Ninguém filma nossas transas com aquela luz bonita de comercial, que faz tudo parecer uma coreografia de pessoas talhadas à perfeição em um Photoshop último lançamento. Uma pena. Teria a minha dirigida pelo David Fincher.
Aliás, em Clube da Luta, ele deve ter se cansado de filmar a beleza irretocável da fantasia. Preferiu falar do macho perdido e no escuro. Que tem a cara de cidadão comum do Edward Norton mas, na imaginação, ostenta os músculos bem distribuídos do Brad Pitt. Que não sabe reencontrar sua macheza a não ser na base da porrada. Que freqüenta grupos de auto-ajuda para sair de lá fortalecido, tirando sarro de todos aqueles menos equipados e perdedores. Que se cerca de tudo que há pra se consumir, comprando sua parte vistosa do armamento dos vencedores.
Tom Cruise, em De olhos bem fechados, também tem um quê do macho frágil. Vive em paz com a gostosa da Nicole Kidman mas não consegue tirar da cabeça a imagem da traição dela, que nunca aconteceu a não ser na imaginação da própria. Na cachola dele, no entanto, foi coisa de cinema, com um parceiro viril, atlético, sobre a mesa, com a calcinha dela arriada. Não há como competir. Ele busca o supertesão para combinar com o supersexo de que ela precisa. Cadê? Talvez esteja no vale-tudo de uma orgia. Não está. Do meio das gostosas modelos, sai sem comer ninguém. Talvez esteja no descompromisso de uma prostituta. Ops, também não. Ele não se sente à vontade.

www.chocolate.blogspot.com


Publicado por Roxy em maio 28, 2004 06:54 PM
Comentários

tv gostei gostei, mas... :) Rixy, qd puseres estes textos, não te importas de pô-los para português europeu?

é só uma sugestão...

o texto está excelente, este site com estes textos, com os últimos questionários, para mim tem sido dos melhores que tenho visitado nos ultimos tempos.

e ao contrario do q podem pensar, não é por causa das fotos, põe-me a pensar, estimula-me, é agradável estar aqui.

estás de parabéns!

1 beijo.

p.s. o golfinho no weblog reabriu, e vou-te fazer uma surpresa :)

Afixado por: Golfinho em maio 28, 2004 11:38 PM