dezembro 23, 2004

Matenha a distância

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Quando gostamos de alguém ou alguma coisa, nossa tendência natural é a de nos aproximarmos cada vez mais desse objecto, certo? Sempre mais um pouquinho... mais um pouquinho... mais um pouquinho... Pois bem, esse movimento de aproximação é natural, espontâneo e esperado, mas, já prestou atenção ao que acontece enquanto nos aproximamos?

Faça a experiência aí: olhe para um objecto qualquer, uma caneta, por exemplo. Vá se aproximando dela. Vá trazendo cada vez para mais perto dos olhos... O que acontece? Você, no começo, você enxerga a caneta inteira e sempre um pouco melhor, mas, a partir de um determinado momento, começa a não enxergar mais o que estava em volta da caneta, só ela, depois nem a vê mais em seu todo, começa a enxergá-la em parte, e essa parte que você vê é cada vez menor, até que vira um borrão que você não compreende e, se continuar a aproximar, machuca a vista, podendo até cegar. Não é o que acontece?

Pois então, quando nos aproximamos de um objecto qualquer, a partir de determinado momento começamos a perder a visão do todo e, quando não há mais um distanciamento crítico, nem o reconhecemos mais.

Para enxergar corretamente um objecto, precisamos respeitar essa distância mínima necessária. Mesmo que o objecto seja a pessoa amada, um projecto, nosso trabalho, um amigo, a religião, uma decisão a ser tomada.

Por isso, como tendemos a nos aproximar de tudo o que nos diz respeito, temos de tomar cuidado para não exagerar, porque, do contrário, acabamos por perder o distanciamento crítico e começar a fazer bobagens, a imaginar que nos misturamos a esses objetcos cujos limites não enxergamos mais, ao ponto de confundirmos nossa própria identidade com a identidade do objecto, complicando demais, criando problemas sob uma base irreal, inviabilizando a maior parte das soluções possíveis.

Quem está distante, normalmente, além de nos ver tropeçar em nossos objectos feito patetas, ainda é capaz de enxergar nosso ambiente e perceber o quanto nossa confusão o perturba, o quanto o transformamos num circo ou num hospício.

Tropeçamos no que nos interessa por horas, dias, meses a fio, a vida inteira e, quando vemos, somos enterrados com nossos problemas e complicações: apenas objectos dos quais nos aproximamos além do que deveríamos, com os quais nos misturamos indevidamente, ao ponto de perder a percepção dos limites que os separam de nossas individualidades.

Quando passamos do ponto, começamos a não mais analisar racionalmente a pessoa, o problema, o emprego, a coisa, mas a julgá-los como partes de nós mesmos, e esse hibridismo não corresponde à realidade, não faz sentido para quem está distante e vê o quanto enlouquecemos em nosso cotidiano. Normais e insanos, passamos a ser considerados estranhos e a perder a confiabilidade.

Portanto, a melhor coisa a fazer nessa vida é manter distância suficiente de todos os objectos de nosso interesse - os amigos, amores, projectos, e tais - para não haver essa falsa fusão, nem a contaminação, confusão entre nós e eles.

Como dizem os budistas: exercitar o desapego para conhecer a Verdade e a Felicidade; tomar distância do objecto amado para eliminar a Ilusão e o Sofrimento; trocar o desejo pela observação racional e inspirada.

(Claudio Rubio)

Publicado por Roxy em dezembro 23, 2004 05:58 PM
Comentários

Gostei que gostasse, Miragem. Bons Natais e dias seguintes a todos. Gosto do seu blog, Roxy.

Afixado por: Dr. JAP em dezembro 25, 2004 01:28 AM

És danadinho, Stingray, danadinho!!!lol

Afixado por: Roxy em dezembro 24, 2004 02:32 PM

Eu diria: O que se ganha em percepção interior perde-se em nitidez óptica! Perdoem o pseudo-plágio.

Afixado por: Stingray em dezembro 24, 2004 10:13 AM

Mi,...sua traidora...grrrrrrrrrrrrr!!!

Afixado por: Roxy em dezembro 24, 2004 07:14 AM

"O que se perde em nitidez óptica ganha-se em percepção interior..." Depende da perspectiva, não???

Afixado por: Roxy em dezembro 24, 2004 07:14 AM

Gostei muito do comentário Dr.JAP... muito mesmo.

Afixado por: Miragem em dezembro 23, 2004 09:42 PM

Os olhos servem para observar aquilo que se encontra a alguma distância (pelo menos à distância focal). Para cá desse ponto, para usar a mesma analogia, respira-se e sente-se, não sendo forçoso que alguém se machuque nesse processo. O que se perde em nitidez óptica ganha-se em percepção interior. E costuma compensar.

Afixado por: Dr. JAP em dezembro 23, 2004 09:02 PM