
Tens a vida arrasada.
Tua voz fica calada,
No teu rosto o embaraço:
Nesse peito um sufoco
Por saber que tudo é oco
Em redor do teu espaço.
Já não sabes com que cara
É que o outro te encara.
E vês nas virtudes vícios
De vida passado ao lado
No seu ritmo apressado
Ignorando os teus suplícios.
Encostas na almofada
O desgaste da jornada,
Ou novelo interrompido...
Amanhã é outro dia,
Previsível romaria,
Dum destino decidido.
O teu olhar de defunto
Ao encarar cada assunto
Dá-te um ar profissional…
Se soubessem o que pensas
Retiravam-te as avenças
E subvenção social.
Quando se perde um afecto
Um desejo ou um projecto
Passa a preto o que era azul.
No rosto fica a saudade,
No passado a mocidade
Em que o norte estava ao sul.
E, sozinha frente ao espelho,
Esse ingrato, esse velho
Reflexo de lucidez,
Deixas descair o brilho:
Cada lágrima no trilho
Aguardando sua vez…
Molham os teus pés descalços
Agravando os percalços
Dum corpo quase inerte
Em busca dum aconchego,
Duma réstia de sossego
Que em noite se converte.
Já nem vês a aliança
Que no teu dedo balança
Em som desorientado.
Perdida entre os anéis
E, de dia, nos papéis
Que te tornam ocupado.
Entre juras de mudança
E cansada de esperança
Quem tu amas vai embora.
De repente vem o frio:
És a vela sem pavio
Sem saber se ri se chora.
Teu suor é diferente.
A perna está dormente
De só ficares sentado.
Pensando, porque a vida
Conseguiu abrir ferida
Entre o certo e errado.
E contemplas o crepúsculo
Com a réstia de um músculo
Que mantém teus olhos firmes.
Pouco a pouco, passo a passo,
No teu ritmado compasso
Lês as palavras que imprimes.
Cavaleiro de papel
E pedaços de cordel
No teu quarto espalhados
Deleitando a bicharada
Nesse chão refastelada
E imune aos teus recados.
Preferes morrer à fome
Que dizer teu próprio nome
Desgastado da rotina.
Pois viste o que perdeste
Pelo pouco que viveste
Renegado na colina.
De perdido nos rascunhos
E já sem forças nos punhos
Lança o último grito:
Mesmo que, a falso, soe
Se a magoei, perdoe.
É o meu apelo aflito.
De papelada inundado,
O próprio Sol é tapado,
Entre o vidro e a cortina.
Tal e qual uma muralha
Que se ergue quando falha
A absolvição divina.
Acordei! Vês? Era sonho
Tão sentido e tão bisonho…
É imagem do futuro?
Era Paulo agora é Bento
Que te adverte do tormento
Dum Mundo sempre mais duro.
(Pássaro Distante)
Publicado por Roxy em junho 6, 2005 03:01 AMPró caralho com "as avenças e a subvenção social". É tudo uma cambada de atrofiados a tentar angariar membros pró clube!
Afixado por: stingray em junho 7, 2005 11:26 PM