“Escolher é dividir e multiplicar ao mesmo tempo.”
Eduardo Sá
Se não gostas de ti, quem irá gostar?
Se não sentes admiração por teus empreendimentos, quem irá sentir?
Se duvidas das tuas decisões, quem poderá acreditar nelas?
Se não sentes alegria com a vida que tens, quem irá alegrar-se?
Se ainda não compreendeste o verbo compreender, como pretendes conjugar o verbo amar?
Se colocas azedume nas mais puras emoções, por que te revoltas por levar uma existência amarga?
Se destróis todas as entradas que te levam afecto, por que lamentas a solidão em que vives?
Se não tratas da tua cultura de simpatias, por que estranhas de não colher viçosas amizades?
Se insistes em semear males e tristeza, por que ficas supreendido quando germinas decepções?
Se não te dispões a perdoar as faltas dos outros, com que direito esperas a complacência das tuas?
Se não tens fé , nem confiança, nem estusiasmo, por que acusas o mundo de ser frio, árido e sem bondade?
Wellington Armanelli

Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti. Por isso, só te resta deixares-te levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direcção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deves imaginar.
(...) E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não te iludas: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-te-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o teu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do teu sangue e do sangue dos outros.
E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.
Haruki Murakami, in 'Kafka à Beira-Mar'